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Animal de dentro Outubro 29, 2007

Arquivado em: Literária — devaneario @ 1:52 am
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Olhar aceso: busco-me e não me encontro. Vou além do reflexo, do visível, da máscara já envelhecida. Além do meu corpo, do meu sexo. Além de uma vida, suas histórias, marcas e sonhos. Preciso encontrar em mim a natureza humana, enxergá-la em todos os seus ângulos. Confrontar com os limites da existência, com a gangorra da vida. A eterna transformação, a constante transitoriedade, no entorno e dentro de nós. Esses dessaranjos que nos forçam a reivindicar a ordem. Lutar contra o caos do mundo. Entrar numa guerra perdida em busca do controle. Renegando o animal que somos, cobrindo-o de razão e intelectualidade. Mascarando nossa ignorância para o tanto que ainda não compreendemos. Essa esfera que insiste em brincar com nossas vidas, com nossos sentidos, com nossas ilusões. Esse eterno ponto de interrogação que apesar de todos os aparatos tecnológicos ainda paira enorme sobre nossas cabeças.

De arrancar pedaços já cansei minha pele. Olho para trás e vejo uma vida inteira feita de amores que rasgaram e levaram partes minhas, de feridas extirpadas não cicatrizadas longe de mim, desaparecidas reclamando por cuidados. Mas não sei onde estão, apenas as sinto. Como o corpo que acredita ser presente o membro inexistente. Como um fantasma do já sido e que de alguma forma continua lá, não concreto, mas gasoso. Ectoplasmático.

Dores perdidas pelos labirintos em que andei. Faces minhas que ficaram pelo caminho, presas em espelhos e poças de chuva. Refletindo para sempre quem eu fui. Zonas de tensão, campos de guerra que atravessei. Saí viva, mas não ilesa. Nunca se sai pleno depois de confrontar a morte. Ela sempre pede além do que estamos dispostos a ceder. Ela sempre mata algo em nós para nos deixar seguir em frente. São essas mortes, pequenas e diárias mortes, a condição que nos permite seguir. Mas não inteiros. E sim novos, outros seres. Vivendo e revivendo. Criando e recriando várias vezes a mesma vida. 

Feito uma colcha de retalhos vamos nos formando. Vestígios de diferentes tecidos, de cores diversas e variadas texturas. Cada pedaço um pouco do que fomos. Cada parte enaltecida em sua diferença. E todas juntas criando um sentido para toda uma existência. Há como deixarmos algo de fora? Haveria como nos manter sempre inteiros? Talvez se utilizássemos carapaças sobre nossa pele. Algo que nunca de fato nos revelasse e mantivesse sem arranhões a nossa carne, sem feridas, nem cicatrizes a nossa pele. Valeria a pena? Deixar de andar com medo de cair? Deixar de sonhar com medo de acordar? Deixar de sorrir com medo de chorar? Deixar de viver o amor com medo dele acabar? Não, talvez não seja necessário sofrer. Talvez não seja necessário se ferir. Pode haver milhões de forma de viver sem nunca ter caído. Sem nunca ter sido açoitado por tristezas. Mas sempre duvidei das ilusões dos caminhos perfeitos.

Agora preciso acordar o animal adormecido. Desfazer o feitiço da Medusa. Olhar novamente para o espelho sem medo de congelar ao confrontar com meus próprios olhos. Aceitar o inexorável que me habita. Fazê-lo tornar-se parte de meu rosto. Expor suas escamas, penas ou pêlos. Exibir sem culpa suas garras e dentes. Metamorfosear-me com meu animal desperto. Quem me amar, amará também a minha besta. Terá que acariciá-la e dar-lhe alimento. A quem eu amar terei que ver além, descobrir seu habitante. Chamá-lo à luz, fazê-lo mostrar-se. Aproximar-me lenta e sutilmente, respeitando os limites de seu território, até fazê-lo perceber-me como uma aliada.

Olhei-me no espelho e no lugar de meu rosto estava ela. Justo de quem eu fugira por todos esses anos. Minha pantera. Fitando-me em posição de ataque, fitando-me não como a uma caça, muito menos como a uma igual. Olhava-me como se fosse eu a ameaça. Eu, que durante todo esse tempo a ignorei, fugi de lhe encarar. Trancafie-a em algum lugar dos porões de meu labirinto. Fingi não escutar seus urros e lamentos. Criei em torno dela uma redoma de verdades plenas em si, mas murchas por dentro. A quem tentei proteger, a ela ou a mim? Ambas. Nenhuma.

Algo me faltou desde que a bani. Um vazio sem nome nem cura, um vazio devorador a tentar me mastigar. Na luz artificial de meus dias brancos e sem erros não haveria espaço para ela, não poderíamos coexistir. Como senti falta de seu calor, sua liberdade selvagem com cheiro de chuva, seu poder guiado pela intuição colorida de seus instintos e pelas fases da lua. 

Tentei domesticar o que acreditava poder me ferir algum dia, sem perceber que mais ainda me fazia sangrar ao tentar arrancar um pedaço, um membro, um órgão. Ao tentar extirpar minha sombra. Como viver com alma aleijada? Demorei a perceber o quanto precisava dela. O quanto precisávamos uma da outra. E assim, simples assim, a liberto. Agora ela me afronta, não a temo mais, entrego-me a ela. Confio em seu olhar, confio nesses olhos negros que me apontam uma direção. Seguiremos juntas. Não tenho mais o que temer ao percorrer os caminhos dentro de mim.

  Publicado no Diário Popular em 19/09/2007 – Pelotas/RS

 

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